JIU-JITSU BRASILEIRO
U M A H I S T Ó R I AB R E V E
Esse livro é dedicado a
Carlos e Hélio Gracie,
criadores do JiuJitsu
Brasileiro.
DEDICATÓRIA
B R E V E H I S T Ó R I A D O J I U - J I T S U B R A S I L E I R O
POR
DEMIAN
MAIA
Carlos Gracie demonstrando chave de
braço em Hélio Gracie (Rio de Janeiro
1.951)
INTRODUÇÃO
Para contar a história do Jiu-Jitsu
Brasileiro (JJB) vamos voltar ao
passado e falar das artes marciais que o
moldaram. O ju-jutsu japonês e o judô
são as principais influencias do Jiu-
Jitsu nascido no Brasil. No entanto, não
podemos esquecer que lutas como a
capoeira, luta livre, luta greco-romana,
savate (boxe francês) também tiveram
bastante importância na criação do JJB.
Para entender melhor essa história
vamos voltar no tempo, mais
precisamente para Japão antigo, onde
surgiram as primeiras técnicas que
dariam origem ao ju-jutsu japonês.
Carlos Gracie demonstrando uma
chave de com o irmão Hélio Gracie
na academia da avenida Rio Branco
(centro do Rio de Janeiro)
O NASCIMENTO
DO JU-JUTSU
JAPONÊS
As primeiras referências da presença
de lutas corpo a corpo no Japão datam
de antes de cristo. Existe um texto
antigo japonês chamado “nihon
shoki”(720d.c.) que descreve um
evento de sumô - luta tradicional
japonesa - realizado no ano 23 a.c., em
uma cerimonia para garantir uma boa
colheita.
No período Heian (794-1.185)
famílias poderosas passam a contratar
os bushi (guerreiros) para formar uma
guarda particular. Esses bushi eram
treinados em artes de guerra, e passam
a ser conhecidos como samurais. O
governo central, liderado pelo
imperador, está enfraquecido e essas
famílias começam a tomar o poder
político.
Para facilitar nosso entendimento,
vamos dividir a história do Japão
nas seguintes eras:
Japão antigo (até 538)
Asuka e Nara (538-794)
Heian (794-1.185)
Kamakura (1.185-1.333)
Muromachi e Azuchi-Momoyama
(1.333-1.603)
Edo (1.603-1.868)
Meiji (1.868-1.912)
Taisho, Showa, Heisei e Reiwa
(1.912 - presente)
No período Kamakura (1.185-
1.333) finalmente as famílias de
guerreiros chegam ao poder. Os
samurais dominarão o Japão pelos
próximos 700 anos. O chefe militar
supremo, líder dos samurais, é
denominado xogum. Começa então
uma fase intensa de guerras civis,
conhecida como sengoku (entre
1.467 e 1.615). Surgem escolas de
guerreiros, conhecidas como “koryu
bujutsu”, voltadas para uso de
armas. Nessas escolas os samurais
também treinavam técnicas de luta
desarmada, mas esse não era o foco
principal, pois a ideia era usar essas
técnicas nos campos de batalha,
onde os guerreiros estariam
armados.
Desenho antigo de um samurai
A solidificação da classe dos samurais
Crise e queda dos samurais
O período Edo (1.603-1.868) é dominado pelos xogum da família Tokugawa, que
consegue manter a paz e unificar o Japão pela primeira vez na história. Os Tokugawa
determinam o fechamento dos portos japoneses para o ocidente, além de proibir o uso
de armas para qualquer cidadão que não fosse da classe samurai. Isso faz com que
surjam escolas de guerreiros que dão maior ênfase as lutas sem armas, conhecidas
como koryu ju-jutsu, que passam a ser bastante populares. Dezenas de estilos são
criados. Esse período é o auge do prestigio da classe samurai.
Tokugawa Ieyasu, primeiro xogum do clã Tokugawa
Em 1.867 família Tokugawa, que
governava o Japão mais de 260
anos, passando o controle do país de
geração em geração, é deposta. O
período Meiji (1.868-1.912) marca o
fim da era dos samurais.
O governo Tokugawa vivia um
período de crises desde o final do
século XVIII, que culmina com a
deposição do xogum Tokugawa
Yoshinobu. Toma posse o imperador
Meiji. O novo governo abre os portos
para o comércio com o ocidente e
extingue a classe dos samurais,
proibindo-os de andar com suas
famosas espadas, as katanas.
Culturalmente o Japão passa por
uma fase de ocidentalização e negação
das suas tradições e artes, como o ju-
jutsu. O que vem do ocidente passa a
ser super valorizado, enquanto o que é
japonês passa a ser visto como antigo e
atrasado. Uma das consequências é o
declínio das escolas de ju-jutsu
tradicionais, que passam a ser vistas
como algo ultrapassado e sem sentido.
Muitos professores destas artes
marciais passam a buscar outros
trabalhos. As escolas começam a
envolver-se em desafios violentos entre
academias, para ver “qual a melhor”, o
que piora ainda mais imagem da arte
marcial no país.
JIGORO KANO
E A KODOKAN
É nesse contexto de desvalorização
das lutas japonesas que nasce Jigoro
Kano, em 1.860. Kano vem de uma
família abastada e influente. Começa a
treinar koryu ju-jutsu aos 16 anos,
graduando-se em 2 estilos: o tenjin-
shinyo ryu e o kito ryu. Desde cedo ele
acreditava no valor da cultura japonesa,
e enxergava as artes marciais como
instrumento para educação dos seus
cidadãos. Começa então a desenvolver
uma escola voltada a ensinar o ju-jutsu,
com foco no aperfeiçoamento físico e
moral, não apenas como uma arte de
combate.
Em 1.882 Kano abre sua academia
de ju-jutsu, chamada kodokan judô, que
era uma mistura dos estilos que ele
havia aprendido. Porém, sua escola
tinha alguns diferenciais: seu objetivo
principal era treinar a luta como meio
para o desenvolvimento pessoal. Por
isso utilizou o termo “dô” (que
significa caminho, num sentido
filosófico), ao invés do “jutsu”
(técnica).
Visando melhorar a reputação das artes
marciais nipônicas cria um currículo de
ensino e um código de ética. Esse
código, entre outras coisas, proibia seus
alunos de participarem de lutas por
dinheiro.
Jigoro Kano ensinando Judo na kodokan
Os japoneses passam a utilizar duas
terminologias para diferenciar suas
artes marciais antigas das que estavam
surgindo nessa época: as koryu são as
escolas tradicionais (antigas) de artes
marciais. O foco principal é o
treinamento militar. Exemplos dessas
artes são o ju-jutsu (técnica/arte suave),
ken-jutsu (técnica da espada), iai-iutsu
(arte de desembanhar a espada), so-
jutsu (arte da lança), kyu-jutsu (arte do
arco e flecha), hojutsu (arte das armas
de fogo)…
Por outro lado, as gendai budō são
as escolas modernas de artes marciais.
Elas surgem após a restauração Meiji.
O foco principal é o desenvolvimento
pessoal, por meio do treinamento das
lutas. Muitas dessas também utilizam a
prática das artes marciais como esporte.
O sufixo “dô” é usado para nomear
essas escolas. Alguns exemplos são o
judô, kendô, iaidô, kyudô, aikidô,
karatedô… Além disso, adotam
sistemas de rankings de kyu (cores de
faixas) e dans, que não existiam antes.
Em termos de metodologia de treino
também havia diferenças. Existiam as
escolas de ju-jutsu que davam ênfase a
prática de movimentos coreografadas,
conhecidos como kata. Os kata eram
uma forma segura de treinar técnicas
consideradas “mortais”. Defensores
desse método consideravam importante
manter todo arsenal técnico da sua arte,
mesmo que fosse treinado de forma
ensaiada.
Uma outra metodologia focava mais
na prática do randori (luta/ róla ou
sparring). Os mestres dessas escolas
acreditavam que era fundamental
praticar de forma real. Entendiam que
para ser efetivo, não adianta conhecer
um monte de golpes considerados
“mortais” se não souber aplica-los em
um adversário que opõe resistência
(não colaborativo). Para possibilitar um
treino de randori (luta), era preciso
limitar o uso de alguns golpes,
retirando aqueles que não permitiam
aos alunos sua aplicação de forma
segura. Esses mestres defendiam que
golpes seguros não são menos
eficientes. Por exemplo:
estrangulamentos, apesar de altamente
eficientes em um confronto real, são
seguros se pararmos o golpe assim que
o parceiro desistir. O resultado é que o
aluno que treina de forma real (com
resistência), mas somente com técnicas
seguras, se sai muito melhor num
combate do quê o aluno que treina
técnicas supostamente “mortais” de
forma irreal (sem resistência do
parceiro). Jigoro Kano era adepto dessa
segunda forma de treinamento.
Pouco tempo após sua abertura a
Kodokan se estabelece como uma das
principais academias de Tóquio e
começa receber desafios de outros
estilos de ju-jutsu tradicional, vencendo
a maioria. Isso faz com que muitos
alunos de outras escolas de koryu ju-
jutsu migrem para lá.
Essa migração proporciona um grande
intercambio técnico, e o judô começa a
tornar-se mais completo. Vale lembrar
que como Kano queria mudar a
imagem ruim que o ju-jutsu tinha na
época, os desafios eram lutas com
regras, sem golpes traumáticos como
socos e chutes - as lutas poderiam ser
vencidas por quedas, imobilização ou
finalização.
Devido ao bom desempenho dos
alunos de Kano nesses desafios, além
de sua grande influencia política, o
departamento de policia decide que o
judô fará parte do treinamento de seus
oficiais. A Kodokan torna-se a escola
de ju-jutsu mais famosa do Japão.
uma afluência enorme de alunos de
diversos estilos
Jigoro Kano demonstrando uma técnica de projeção
MATAEMON TANABE
E OS DESAFIOS A
KODOKAN
No final do século XIX a Kodokan é
desafiada por Mataemon Tanabe,
professor de uma escola pouco
conhecida de ju-jutsu, a fusen ryu.
Tanabe era da 4a geração de mestres
dessa escola. O fundador do estilo
ensinou foi seu avô, que ensinou o seu
pai. Aos 9 anos Mataemon começou a
treinar com seu pai e na adolescência
começou a viajar com ele, participando
de competições e desafios. Tanabe
dizia que seu ju-jutsu era muito mais
“um resultado prático dos desafios que
participou do quê o que aprendeu dos
seus professores”
Em 1.891 Tanabe muda-se para
Tóquio e torna-se instrutor no
Departamento de Polícia. desafia
outro instrutor, Takisaburo Tobari, para
uma luta. Tobari era um ex-praticante
de tenjin shinyo ryu ju-jutsu e faixa
preta 3o dan de judô. Tanabe vence por
estrangulamento.
Tobari o desafiaria para uma revanche
por 2 vezes nos próximos anos,
perdendo todas. Entre 1.892 e 1.895
Tanabe desafia a Kodokan várias vezes
e vence todas. Acreditase que ele
desafiou até Jigoro Kano, mas não
obteve resposta. Até o fim de sua
carreira ele lutaria com vários
representantes do judô, perdendo
apenas 2 vezes.
Durante as lutas Tanabe levava a
luta para o solo, usando técnicas pouco
familiares para os lutadores da
Kodokan. Assim ele foi capaz de
vencer quase todas as lutas por
finalização. Até então o Kodokan judô
possuía pouco treinamento em técnicas
de chão. relatos de que Tanabe
usava muito quedas de sacrifício, como
o balão. Assim, se a projeção não
funcionasse ele já estava na sua zona de
conforto, isto é, a luta de chão.