JIU-JITSU BRASILEIRO
U M A H I S T Ó R I AB R E V E
Esse livro é dedicado a
Carlos e Hélio Gracie,
criadores do JiuJitsu
Brasileiro.
DEDICATÓRIA
B R E V E H I S T Ó R I A D O J I U - J I T S U B R A S I L E I R O
POR
DEMIAN
MAIA
Carlos Gracie demonstrando chave de
braço em Hélio Gracie (Rio de Janeiro
1.951)
INTRODUÇÃO
Para contar a história do Jiu-Jitsu
Brasileiro (JJB) vamos voltar ao
passado e falar das artes marciais que o
moldaram. O ju-jutsu japonês e o judô
são as principais influencias do Jiu-
Jitsu nascido no Brasil. No entanto, não
podemos esquecer que lutas como a
capoeira, luta livre, luta greco-romana,
savate (boxe francês) também tiveram
bastante importância na criação do JJB.
Para entender melhor essa história
vamos voltar no tempo, mais
precisamente para Japão antigo, onde
surgiram as primeiras técnicas que
dariam origem ao ju-jutsu japonês.
Carlos Gracie demonstrando uma
chave de com o irmão Hélio Gracie
na academia da avenida Rio Branco
(centro do Rio de Janeiro)
O NASCIMENTO
DO JU-JUTSU
JAPONÊS
As primeiras referências da presença
de lutas corpo a corpo no Japão datam
de antes de cristo. Existe um texto
antigo japonês chamado “nihon
shoki”(720d.c.) que descreve um
evento de sumô - luta tradicional
japonesa - realizado no ano 23 a.c., em
uma cerimonia para garantir uma boa
colheita.
No período Heian (794-1.185)
famílias poderosas passam a contratar
os bushi (guerreiros) para formar uma
guarda particular. Esses bushi eram
treinados em artes de guerra, e passam
a ser conhecidos como samurais. O
governo central, liderado pelo
imperador, está enfraquecido e essas
famílias começam a tomar o poder
político.
Para facilitar nosso entendimento,
vamos dividir a história do Japão
nas seguintes eras:
Japão antigo (até 538)
Asuka e Nara (538-794)
Heian (794-1.185)
Kamakura (1.185-1.333)
Muromachi e Azuchi-Momoyama
(1.333-1.603)
Edo (1.603-1.868)
Meiji (1.868-1.912)
Taisho, Showa, Heisei e Reiwa
(1.912 - presente)
No período Kamakura (1.185-
1.333) finalmente as famílias de
guerreiros chegam ao poder. Os
samurais dominarão o Japão pelos
próximos 700 anos. O chefe militar
supremo, líder dos samurais, é
denominado xogum. Começa então
uma fase intensa de guerras civis,
conhecida como sengoku (entre
1.467 e 1.615). Surgem escolas de
guerreiros, conhecidas como “koryu
bujutsu”, voltadas para uso de
armas. Nessas escolas os samurais
também treinavam técnicas de luta
desarmada, mas esse não era o foco
principal, pois a ideia era usar essas
técnicas nos campos de batalha,
onde os guerreiros estariam
armados.
Desenho antigo de um samurai
A solidificação da classe dos samurais
Crise e queda dos samurais
O período Edo (1.603-1.868) é dominado pelos xogum da família Tokugawa, que
consegue manter a paz e unificar o Japão pela primeira vez na história. Os Tokugawa
determinam o fechamento dos portos japoneses para o ocidente, além de proibir o uso
de armas para qualquer cidadão que não fosse da classe samurai. Isso faz com que
surjam escolas de guerreiros que dão maior ênfase as lutas sem armas, conhecidas
como koryu ju-jutsu, que passam a ser bastante populares. Dezenas de estilos são
criados. Esse período é o auge do prestigio da classe samurai.
Tokugawa Ieyasu, primeiro xogum do clã Tokugawa
Em 1.867 família Tokugawa, que
governava o Japão mais de 260
anos, passando o controle do país de
geração em geração, é deposta. O
período Meiji (1.868-1.912) marca o
fim da era dos samurais.
O governo Tokugawa vivia um
período de crises desde o final do
século XVIII, que culmina com a
deposição do xogum Tokugawa
Yoshinobu. Toma posse o imperador
Meiji. O novo governo abre os portos
para o comércio com o ocidente e
extingue a classe dos samurais,
proibindo-os de andar com suas
famosas espadas, as katanas.
Culturalmente o Japão passa por
uma fase de ocidentalização e negação
das suas tradições e artes, como o ju-
jutsu. O que vem do ocidente passa a
ser super valorizado, enquanto o que é
japonês passa a ser visto como antigo e
atrasado. Uma das consequências é o
declínio das escolas de ju-jutsu
tradicionais, que passam a ser vistas
como algo ultrapassado e sem sentido.
Muitos professores destas artes
marciais passam a buscar outros
trabalhos. As escolas começam a
envolver-se em desafios violentos entre
academias, para ver “qual a melhor”, o
que piora ainda mais imagem da arte
marcial no país.
JIGORO KANO
E A KODOKAN
É nesse contexto de desvalorização
das lutas japonesas que nasce Jigoro
Kano, em 1.860. Kano vem de uma
família abastada e influente. Começa a
treinar koryu ju-jutsu aos 16 anos,
graduando-se em 2 estilos: o tenjin-
shinyo ryu e o kito ryu. Desde cedo ele
acreditava no valor da cultura japonesa,
e enxergava as artes marciais como
instrumento para educação dos seus
cidadãos. Começa então a desenvolver
uma escola voltada a ensinar o ju-jutsu,
com foco no aperfeiçoamento físico e
moral, não apenas como uma arte de
combate.
Em 1.882 Kano abre sua academia
de ju-jutsu, chamada kodokan judô, que
era uma mistura dos estilos que ele
havia aprendido. Porém, sua escola
tinha alguns diferenciais: seu objetivo
principal era treinar a luta como meio
para o desenvolvimento pessoal. Por
isso utilizou o termo “dô” (que
significa caminho, num sentido
filosófico), ao invés do “jutsu”
(técnica).
Visando melhorar a reputação das artes
marciais nipônicas cria um currículo de
ensino e um código de ética. Esse
código, entre outras coisas, proibia seus
alunos de participarem de lutas por
dinheiro.
Jigoro Kano ensinando Judo na kodokan
Os japoneses passam a utilizar duas
terminologias para diferenciar suas
artes marciais antigas das que estavam
surgindo nessa época: as koryu são as
escolas tradicionais (antigas) de artes
marciais. O foco principal é o
treinamento militar. Exemplos dessas
artes são o ju-jutsu (técnica/arte suave),
ken-jutsu (técnica da espada), iai-iutsu
(arte de desembanhar a espada), so-
jutsu (arte da lança), kyu-jutsu (arte do
arco e flecha), hojutsu (arte das armas
de fogo)…
Por outro lado, as gendai budō são
as escolas modernas de artes marciais.
Elas surgem após a restauração Meiji.
O foco principal é o desenvolvimento
pessoal, por meio do treinamento das
lutas. Muitas dessas também utilizam a
prática das artes marciais como esporte.
O sufixo “dô” é usado para nomear
essas escolas. Alguns exemplos são o
judô, kendô, iaidô, kyudô, aikidô,
karatedô… Além disso, adotam
sistemas de rankings de kyu (cores de
faixas) e dans, que não existiam antes.
Em termos de metodologia de treino
também havia diferenças. Existiam as
escolas de ju-jutsu que davam ênfase a
prática de movimentos coreografadas,
conhecidos como kata. Os kata eram
uma forma segura de treinar técnicas
consideradas “mortais”. Defensores
desse método consideravam importante
manter todo arsenal técnico da sua arte,
mesmo que fosse treinado de forma
ensaiada.
Uma outra metodologia focava mais
na prática do randori (luta/ róla ou
sparring). Os mestres dessas escolas
acreditavam que era fundamental
praticar de forma real. Entendiam que
para ser efetivo, não adianta conhecer
um monte de golpes considerados
“mortais” se não souber aplica-los em
um adversário que opõe resistência
(não colaborativo). Para possibilitar um
treino de randori (luta), era preciso
limitar o uso de alguns golpes,
retirando aqueles que não permitiam
aos alunos sua aplicação de forma
segura. Esses mestres defendiam que
golpes seguros não são menos
eficientes. Por exemplo:
estrangulamentos, apesar de altamente
eficientes em um confronto real, são
seguros se pararmos o golpe assim que
o parceiro desistir. O resultado é que o
aluno que treina de forma real (com
resistência), mas somente com técnicas
seguras, se sai muito melhor num
combate do quê o aluno que treina
técnicas supostamente “mortais” de
forma irreal (sem resistência do
parceiro). Jigoro Kano era adepto dessa
segunda forma de treinamento.
Pouco tempo após sua abertura a
Kodokan se estabelece como uma das
principais academias de Tóquio e
começa receber desafios de outros
estilos de ju-jutsu tradicional, vencendo
a maioria. Isso faz com que muitos
alunos de outras escolas de koryu ju-
jutsu migrem para lá.
Essa migração proporciona um grande
intercambio técnico, e o judô começa a
tornar-se mais completo. Vale lembrar
que como Kano queria mudar a
imagem ruim que o ju-jutsu tinha na
época, os desafios eram lutas com
regras, sem golpes traumáticos como
socos e chutes - as lutas poderiam ser
vencidas por quedas, imobilização ou
finalização.
Devido ao bom desempenho dos
alunos de Kano nesses desafios, além
de sua grande influencia política, o
departamento de policia decide que o
judô fará parte do treinamento de seus
oficiais. A Kodokan torna-se a escola
de ju-jutsu mais famosa do Japão.
uma afluência enorme de alunos de
diversos estilos
Jigoro Kano demonstrando uma técnica de projeção
MATAEMON TANABE
E OS DESAFIOS A
KODOKAN
No final do século XIX a Kodokan é
desafiada por Mataemon Tanabe,
professor de uma escola pouco
conhecida de ju-jutsu, a fusen ryu.
Tanabe era da 4a geração de mestres
dessa escola. O fundador do estilo
ensinou foi seu avô, que ensinou o seu
pai. Aos 9 anos Mataemon começou a
treinar com seu pai e na adolescência
começou a viajar com ele, participando
de competições e desafios. Tanabe
dizia que seu ju-jutsu era muito mais
“um resultado prático dos desafios que
participou do quê o que aprendeu dos
seus professores”
Em 1.891 Tanabe muda-se para
Tóquio e torna-se instrutor no
Departamento de Polícia. desafia
outro instrutor, Takisaburo Tobari, para
uma luta. Tobari era um ex-praticante
de tenjin shinyo ryu ju-jutsu e faixa
preta 3o dan de judô. Tanabe vence por
estrangulamento.
Tobari o desafiaria para uma revanche
por 2 vezes nos próximos anos,
perdendo todas. Entre 1.892 e 1.895
Tanabe desafia a Kodokan várias vezes
e vence todas. Acreditase que ele
desafiou até Jigoro Kano, mas não
obteve resposta. Até o fim de sua
carreira ele lutaria com vários
representantes do judô, perdendo
apenas 2 vezes.
Durante as lutas Tanabe levava a
luta para o solo, usando técnicas pouco
familiares para os lutadores da
Kodokan. Assim ele foi capaz de
vencer quase todas as lutas por
finalização. Até então o Kodokan judô
possuía pouco treinamento em técnicas
de chão. relatos de que Tanabe
usava muito quedas de sacrifício, como
o balão. Assim, se a projeção não
funcionasse ele já estava na sua zona de
conforto, isto é, a luta de chão.
Sabe-se que algumas vezes ele simplesmente se sentava no chão assim que a luta
começava. Também era famoso por sua técnica de chave de calcanhar.
Com o respeito que ganhou, Tanabe foi chamado para fazer parte da Dai Nippon
Butoku Kai (Grande Casa das Excelências Marciais do Japão), organização fundada
em 1.895, em Kioto, para promover as artes marciais japonesas. Ele, junto com
Jigoro Kano, é um dos 20 mestres escolhidos para desenvolver o jujutsu.
Mataemon Tanabe treinando
Nessa época Tanabe também treinou
na escola do mestre Yataro Handa, o
Handa Dojo de Osaka. ele teria
como parceiros de treino Yukio Tani,
Taro Miyaki, Sadakazu Uyenishi, que
mais tarde viajariam pelo mundo
participando de desafios contra outros
lutadores, ensinando e divulgando o ju-
jutsu. Nessa academia é provável que
eles treinassem bastante ne-waza (luta
de chão), pois estavam focados em
realizar desafios contra outras escolas.
Yataro Handa era mestre em tenjin
shinyo ryu e daito ryu, mas eles
também treinavam outros estilos de ju-
jutsu como o sekigushi ryu, yoshin ryu
e takenouchi ryu.
A consequência direta da lutas de
Tanabe contra a Kodokan foi de “abrir
os olhos” dos lutadores de judô para a
importância da luta de solo (ne-waza).
Jigoro Kano, que preferia mais a luta
em pé, entendeu a importância dessas
técnicas (ne-waza) e as implementou
no currículo do judô. Ele inclusive
convidou lutadores conhecedores da
luta de chão para ensinar na sua escola.
Alguns historiadores acreditam que
tentou contratar Tanabe para ensinar
técnicas de solo aos judokas.
Outra consequência desses desafios
foi um “boom” da luta de chão no judô.
As regras do judô daquela época eram
muito diferentes das atuais. Por
exemplo, a luta de solo não era
interrompida a todo instante para ser
reiniciada em pé, como ocorre hoje em
dia. Havia muito mais liberdade para o
refinamento das técnicas de luta de
chão. O judo ainda era um estilo de ju-
jutsu, tendo se diferenciado muito
pouco do ju-jutsu tradicional, como
viria a ocorrer ao longo do século XX.
Reunião de mestres de ju-jutsu na Dai Nippon Butoku Kai em
1.906. Tanabe está em pé, o 6o a partir da esquerda. O 5o
sentado a partir da esquerda é Jigoro Kano
Nessa época (1.895) um jovem chamado Mitsuyo Maeda começava seus treinos na
Kodokan, e provavelmente foi impactado esses desafios. Estes fatos - o ingresso de Maeda na
Kodokan, as lutas de Tanabe contra os judokas e o treinamento do Handa Dojo - viriam mudar
a história do judô. Consequentemente, teriam um impacto enorme no que viria a ser o Jiu-Jitsu
Brasileiro.
A Kodokan era um grande “destino” de professores de jiu-jitsu. O objetivo de Kano era que
o judo fosse o principal estilo de ju-jutsu ensinado no Japão e no mundo. Devido a sua grande
influencia e organização, pode-se dizer que Kano atingiu seu resultado. Mandou representantes
de sua escola para o mundo todo. Graduou muitos mestres ju-jutsu como faixas pretas de judo,
que passaram a representar sua escola, mesmo sem nunca terem treinado lá. Isso aconteceu
também na Europa e Estados Unidos. Criou uma estrutura sólida, com grande força política e
muitos professores consideraram interessante representá-la. O ju-jutsu quase desapareceu.
Porém ele viria a renascer em terras bem distantes, num longínquo país da América do Sul.
MITSUYO MAEDA:
O CONDE KOMA
Mitsuyo Maeda nasceu em 1.878, na
vila de Funazawa, cidade de Hirosaki, no
Japão. Começou a treinar Sumô na
adolescência. Também praticou um estilo
de ju-jutsu chamado hongaku kokki ryu.
Sua trajetória na kodokan começou em
1.895, fazendo parte da segunda geração
de faixas pretas da escola. Foi treinado
diretamente por Tsunejiro Tomita e
Sakujiro Yokoyama, alunos diretos de
Jigoro Kano. Mesmo pequeno, Maeda
destacava-se devido a sua grande força e
técnica, tanto nas quedas quanto na luta de
solo.
No final de 1.904 Maeda era um
lutador destacado e foi enviado por Kano
aos EUA, com a missão de difundir o
judô. Ele viajou com seu professor,
Tomita, e posteriormente com outros
representantes dessa escola (Satake, Ono,
Ito…). Começa então uma jornada pelo
mundo que duraria por toda vida, pois ele
nunca retornaria a sua terra natal.
Entre 1.907 e 1.914 Maeda visita vários
países da América Central, América do
Sul, Europa e México. Enfrenta diversos
lutadores, desafiando e sendo desafiado a
lutar nas regras do ju-jutsu, luta livre
(catch as catch can) e vale-tudo.
Por vezes fazia apresentações públicas
oferecendo dinheiro a quem o derrotasse.
Na Espanha ganha o apelido de Conde
Koma - palavra que vem de Komaru
(confusão em japonês).
As viagens possibilitam que ele
conheça e comece a praticar diversas
modalidades de luta, como a greco-
romana, luta livre, boxe, savate e capoeira,
tornando-se assim um lutador completo.
Durante esses anos acumula um enorme
conhecimento, adquirido desse
treinamento em vários estilos de combate
e em desafios contra outros lutadores.
Assim, começa a ter uma visão diferente
do seu estilo de luta.“Estou agora
propondo o uso de luvas de boxe de
borracha sem dedos...eu realmente
acredito que os praticantes de judô
precisam praticar (técnicas de golpes
traumáticos e chaves em condições
especiais]... eu também gostaria de pensar
em outra forma de judô, acrescentando
boxe e kickboxing francês (savate) ao judô
japonês. Eu queria colocar anúncios para o
judô estilo Conde Koma no bairro de
Hibiya (Tóquio)”
Mitsuyo Maeda.Maeda chega ao
Brasil em 1.914, no porto de Santos.
Em seguida vai para Porto Alegre
com uma trupe de lutadores
japoneses que começa a excursionar
pelo país, fazendo demonstrações e
participando de desafios. Até 1.917
passaram pelos estados do Rio
Grande do Sul, São Paulo, Rio de
Janeiro, Minas Gerais, Bahia,
Pernambuco, Maranhão, Amazonas
e Pará. Sua equipe tinha lutadores de
ju-jutsu famosos, como Satake,
Okura, Shimitsu e Sadakazu “Raku”
Uyenishi. Este último teria estudado
no Handa Dojo junto com
Mataemon Tanabe. Por volta de
1.915 Maeda e seus colegas vão
para o norte do país, passando por
Manaus e Belém, continuando a dar
demonstrações e aceitar desafios de
boxeadores, capoeiristas, lutadores
de luta livre...
Mitsuyo Maeda
Cartaz de desafio que Maeda participou em
Belém do Pará
No norte do Brasil ele conhece
Gastão Gracie, encontro que mudaria a
historia das artes marciais para
sempre… Gastão era um brasileiro
descendente de escoceses e sócio do
“American Circus”, onde promovia,
entre outras coisas, lutas. Nos eventos
realizados por Gastão Gracie, Maeda e
Satake enfrentavam atletas de boxe,
luta livre e capoeira. Os japoneses se
apaixonam pelo Brasil. Em 1.916
Satake se estabelece no Amazonas e
passa a ensinar jiu-jitsu em Manaus.
Maeda vai para o Pará e começa a dar
aulas em Belém, no Paysandu Sport
Club.
Por volta de 1.917, em virtude da
afinidade com seu empresário Gastão
Gracie, Maeda começa a ensinar a
Carlos, Oswaldo e Gastão Gracie
Junior, os três filhos mais velhos do
empresário. Provavelmente o que o
lutador nipônico ensinou aos irmãos
Gracie não tenha sido o antigo estilo da
Kodokan, mas sim um estilo
heterogêneo de judo/ju-jutsu, baseado
no que tinha aprendido viajando pelo
mundo, através das lutas que participou
e também de seu intercambio com
diversos estilos de luta ocidentais…
O JU-JUTSU CHEGA
AO BRASIL
Antes de continuar essa história,
vamos voltar um pouco no tempo e
falar sobre os primeiros que trouxeram
a arte marcial japonesa para o Brasil.
Sabemos que Mitsuyo Maeda - o
Conde Koma - e sua trupe foram
pioneiros no ensino de ju-jutsu nas
terras sul-americanas. Porém, é pouco
conhecido o fato de que antes da
chegada de desses lutadores nipônicos,
o ju-jutsu já era praticada no Brasil.
O primeiro registro de alguém
ensinando essa arte marcial no país
vem de 1.908. O Japão tinha acabado
de vencer a guerra russo-japonesa
(1.904-1.905) e começava e se destacar
como potência militar. Mestres
nipônicos foram contratados por
diversos países para ensinar sua arte
marcial a militares e policiais. A
Marinha brasileira contratou Sada
Miyako (também conhecido como
Sakuzo Miura ou Sack Miura) e seu
ajudante, Ume Kakiraha para instruir
suas tropas.
O japonês formou diversos instrutores
na Marinha do Rio de Janeiro, que
foram mandados para diversas escolas
de marinheiros espalhadas por todo o
país. O objetivo era modernizar a
defesa pessoal das tropas, que
anteriormente era fortemente
influenciada pela capoeira. Também
formaram diversos militares no
Exército.
Além da Marinha e do Exército,
Miyako ensinou civis, dando aulas
particulares e em clubes. Foi
responsável pela organização de um
torneio de ju-jutsu para seus alunos da
marinha em 1909 (provavelmente o
primeiro campeonato dessa arte marcial
no Brasil). Entre seus alunos estava
José Floriano Peixoto Filho (filho do
Marechal Floriano, segundo presidente
do Brasil).
Miyako também se apresentavam numa casa de espetáculos instalada no centro
do Rio de Janeiro, o Concerto Avenida. Era feito o seguinte desafio ao público:
quem conseguisse resistir por mais de 3 minutos de luta com ele ganhava um premio
em dinheiro. Isso atraiu a atenção de inúmeros lutadores, inclusive estrangeiros.
Todos foram derrubados e finalizados pelo pequeno japonês. Foi nessa casa de
shows que ele teve sua única derrota, para o capoeirista Cyríaco, em 1.909. O
japonês recebeu um chute “rabo de arraia” que o levou a nocaute. Dizem que o
capoeira teria usado uma “malandragem” extendendo a mão para cumprimentar o
japonês e lançando o golpe no mesmo instante.
Após essa luta, Miyako continuou a fazer desafios por mais algum tempo,
vencendo todos. Em 1.912 a marinha encerraria o seu contrato. Poucos anos depois
chegaria ao Brasil Conde Koma e sua trupe, continuando com a tradição dos desafios
em casas de shows, circos e a instrução do ju-jutsu na Marinha.
Outro grande personagem da época foi o capoeirista Mario Aleixo, que tentou
vencer Sada Miyako por três noites seguidas, sendo derrotado todas as vezes. Depois
de perder a terceira luta ele decide virar aluno do japonês. Aleixo se tornaria o
primeiro professor brasileiro de ju-jutsu, além de criar algo inovador para época -
uma metodologia completa de luta, misturando ju-jutsu, capoeira, savate e boxe.
Anos depois, o lutador brasileiro chegou a treinar com Conde Koma. Foi nessa época
que Koma começou a aprender Capoeira, após assistir uma apresentação entre Mário
Aleixo e Maria, outro famoso capoeirista. Em 1.931, aos 44 anos, Aleixo viria a
lutar com jovem George Gracie. Apesar de ser um personagem esquecido, Mario
Aleixo pode ser considerado o primeiro grande artista marcial brasileiro.
Mario Aleixo e seus alunos de jiu-jitsu
A FAMILIA GRACIE DÁ
INICIO A CRIAÇÃO DO
JIU-JITSU BRASILEIRO
(ANOS 20)
Por volta de 1.917 Conde Koma
começa a ensinar os filhos de seu
amigo, Gastão Gracie. Além dos
irmãos Gracie - Carlos, Oswaldo e
Gastão Gracie Jr. - o japonês teve
outros alunos de destaque. Jacintho
Ferro, foi um grande atleta e também o
principal professor da academia. Além
de Koma, Ferro provavelmente também
deu aulas a Carlos Gracie. Outro aluno
importante seria Donato Pires dos Reis,
que junto com Carlos abriria uma
academia de jiu-jitsu em 1.930, no Rio
de Janeiro. Posteriormente, Carlos
Gracie passou ensinamentos e métodos
desenvolvidos por ele próprio a George
e Hélio, seus irmãos mais novos.
A formação da primeira “Academia
Gracie” data do início da década de
1.920. É nessa época que os Gracie,
vindos de Belém do Pará, se
estabelecem no Rio de Janeiro.
várias versões sobre o surgimento
dessa academia, porém não se sabe ao
certo onde era localizada. Em
entrevistas em jornais da época, Carlos
dizia que começou a ensinar Jiu-Jitsu
no Rio de Janeiro dos anos 20.
Afirmava que, antes de se tornar
instrutor de Jiu-Jitsu da Guarda Civil
de Minas Gerias, ministrou aulas de
defesa pessoal para um grupo em sua
academia de “ginástica” no Rio de
Janeiro. No início do século XX o
termo "ginástica" era utilizado para
designar diversos métodos esportivos,
inclusive lutas. É provável que a
primeira academia tenha surgido por
volta de 1.925. O ensino do Jiu-Jitsu
nessa época manteve-se informal,
ministrado a poucos alunos.
Carlos e seus irmãos - George,
Oswaldo, Gastão e Hélio - também
treinavam outros esportes. Hélio
Gracie, aos 14 anos, praticava esportes
aquáticos (remo e natação), tornando-se
campeão de natação em 1.928.
Em meados da década de 20 os Gracie passaram também a treinar boxe e luta livre. Em
1927, George Gracie, aos 16 anos, disputava campeonatos de boxe amador contra
adversários mais velhos e experientes. Carlos também teria se envolvido com a “nobre arte”,
chegando a ser apontado por seu irmão Hélio como campeão da modalidade. Hélio
mencionava que quando criança costumava ver seu irmão chegando em casa com o rosto
machucado, devido as lutas de boxe. Donato Pires também chegou a boxear em
campeonatos amadores. Em entrevistas na década de 30, Oswaldo Gracie relembrou seu
envolvimento com a luta livre. Muito provavelmente George, que era treinado por Oswaldo
nessa época, também estava envolvido com essa prática.No final da década de 20, Donato
Pires dos Reis convida Carlos Gracie para auxiliá-lo nas aulas de Jiu-Jitsu para polícia de
Belo Horizonte. Na mesma década Carlos passa uma temporada São Paulo, onde abre uma
escola no bairro da Pompéia. Durante a estada na capital paulista conhece o famoso lutador
japonês Geo Omori.
No final da década de 20, Donato Pires dos Reis convida Carlos Gracie para auxiliá-lo
nas aulas de Jiu-Jitsu para polícia de Belo Horizonte. Na mesma década Carlos passa uma
temporada São Paulo, onde abre uma escola no bairro da Pompéia. Durante a estada na
capital paulista conhece o famoso lutador japonês Geo Omori.
Omori era um faixa preta da kodokan e lutador profissional. Chegou ao Brasil em
meados da década de 20, após viver muitos anos nos EUA, onde participou de centenas de
desafios contra lutadores de vários estilos. Em 1.926 abriu um restaurante no bairro do Brás,
na capital paulista. Como o empreendimento não teve sucesso, voltou a lutar em desafios
realizados no circo Queirolos, tornando-se uma grande sensação. Duas de suas lutas mais
famosas foram contra o próprio Carlos Gracie. A popularidade de Geo Omori era enorme.
Geo Omori e Carlos Gracie
Após as lutas contra Carlos, Omori
e o Gracie acabaram fazendo um
intercâmbio. Carlos, George, Oswaldo
e Omori chegaram a treinar juntos.
Nessa fase os Gracie tiveram diversas
experiências importantes, iniciando um
processo de transformação e criando as
bases da arte marcial que ficaria
conhecida como Jiu-Jitsu Brasileiro.
Com Geo Omori, Carlos teve contato
com um aspecto mais profissional das
lutas
A ACADEMIA
GRACIE (ANOS 30)
Na década de 30 a evolução técnica
do jiu-jitsu dos Gracie acontece de
maneira heterogênea, com influencia de
outras modalidades, como a capoeira e
o catch as catch can (luta livre antiga).
O ensino ministrado por Carlos, que era
até então voltado à defesa pessoal,
passa a ser focado nas lutas de ringue.
O que era praticado pelos Gracie já não
era mais o ju-jutsu/judô japonês, mas
algo novo, influenciado pelos mais
diversos estilos e também pela sua
experiencia nos ringues. Nascia, assim,
o Jiu Jitsu Brasileiro.
Em 1.930 Donato Pires dos Reis, em
parceria com Carlos Gracie, abre uma
escola na Rua Marques de Abrantes
(Rio de Janeiro), a “Academia de Jiu-
Jitsu”. Em 1.932 Donato decide sair da
sociedade e Carlos renomeia a escola
de “Academia Gracie”. Os irmãos
Gracie moravam e treinavam nesse
local, que pode ser considerada a
primeira escola de Jiu-Jitsu Brasileiro.
Hélio Gracie com lutadores de capoeira no Rio
de Janeiro
Carlos - o mais velho dos irmãos - tem a visão de transformar o jiu-jitsu no grande
projeto de vida da sua família. Para promover sua arte marcial ele inicia uma série de
desafios contra vários lutadores, visando provar que seu estilo era o melhor. Essa foi a
mesma estratégia usada no passado por lutadores de koryu ju-jutsu, no Japão do final do
século XIX. E também pelos lutadores de judô e ju-jutsu japoneses que foram para Europa e
Estados Unidos no início do século XX (como o próprio Conde Koma).
No início da década de 30 Carlos estava parando de participar de lutas profissionais e
o principal expoente da família era George Gracie, conhecido como o “gato ruivo”.
Também começava a despontar o caçula, Hélio. Pelo fato de George ser mais independente,
muitas vezes entrando em atrito com Carlos, Hélio passou a ser o principal discípulo do
irmão mais velho.
Hélio Gracie iniciou sua carreira profissional aos 18 anos, em janeiro de 1.932, num
desafio de jiu-jitsu contra boxe. Na luta principal desse evento o japonês Geo Omori venceu
o boxeador Tavares Crespo, enquanto Hélio venceu Antônio Portugal na preliminar. A
segunda luta do caçula Gracie foi nas regras do jiujitsu, contra o japonês Takashi Namiki, e
terminou empatada.
Depois disso, fez lutas contra boxeadores, capoeiristas, judocas, lutadores de jiu-jitsu e
luta livre. Algumas lutas se tornaram lendárias. Contra o wrestler norte-americano Fred
Herbert, 29kg mais pesado que o brasileiro, lutou por quase 2 horas. O evento foi
interrompido pela polícia, pois estava adentrando a madrugada. Também lutou com
vários lutadores japoneses de jiujitsu e judô, como nas duas lutas contra Yasuichi Ono, que
terminaram empatadas.
Em 1.937 Hélio era um ídolo
nacional e decide se aposentar das lutas
profissionais com apenas 23 anos.
Enquanto isso, George partiu em
carreira solo, viajando por todo Brasil,
participando de desafios e dando aulas.
Participou também de lutas nas regras
do catch as catch can, estilo de luta
agarrada praticado sem kimono e
desenvolvida na Inglaterra, em que se
vence a luta por finalização ou
imobilização do adversário com as
costas no chão. Dos 5 irmãos, foi o que
realizou o maior número de lutas. Carlos Gracie, Donato Pires dos Reis e George Gracie
Outro irmão, Oswaldo, participou de
algumas lutas e fez um intenso
intercâmbio com atletas do catch as
catch can. Num desses desafios venceu
com um estrangulamento, em menos de
um minuto, o atleta de “catch” João
Baldi, de 125kg (Oswaldo tinha 64kg).
Gastão Gracie Filho dedicou-se ao
ensino de jiu jitsu, sem participar de
lutas. Mudou-se para São Paulo e foi
um dos pioneiros do jiu-jitsu na cidade,
onde também deu aulas para a polícia.
Carlos, George e Hélio Gracie (1933)
ENTRESSAFRA
(ANOS 40)
Os anos 40 foram uma fase em que
o Jiu-Jitsu Brasileiro passou por sua
primeira entressafra . Os principais
personagens da década anterior
estavam parcialmente afastados das
lutas. Hélio Gracie havia se aposentado
em 1.937 e passa a trabalhar na
empresa do seu sogro. Geo Omori
falece (1.938), assim como Oswaldo
Gracie (1.943). Carlos muda-se para
Fortaleza. George Gracie começa a
viajar pelo Brasil participando de lutas
e ensinando. A academia Gracie da Rua
Marques de Abrantes fecha as portas
em 1.942.
Em 1.939 é enviado ao Brasil pela
Kodokan o mestre Sumiyuki Kotani,
para divulgar o Judô. Hélio encontrou-
se com o japonês e houve uma
aproximação entre eles. O brasileiro
chegou a participar de demonstrações
com Kotani, e também de um
campeonato amador de judô pela
federação jukendo. Essa federação
decide graduar Hélio a faixa preta 2o
grau de judô.
O trabalho com o sogro não dá certo
e Hélio vai morar com sua esposa
Margarida num apartamento no bairro
do Flamengo, onde monta um tatame
para dar aulas particulares. Ele diz que
essa foi a fase que mais trabalhou na
vida, chegando a dar 20 aulas (as aulas
duravam por volta de 30 minutos) por
dia. Até a sua aposentadoria no final
dos anos 30, Hélio treinou
predominantemente um jiu-jitsu
desenvolvido para ser eficiente
em desafios contra outros atletas.
Agora passava a envolver-se mais com
alunos que não eram atletas.
Provavelmente, foi nessa fase que
começou a criar o programa Gracie,
mais voltado para adefesa pessoal.
É nessa década que Carlos começa a
desenvolver as bases da dieta Gracie,
que influenciaria muitas gerações de
lutadores e não lutadores brasileiros.
O método nutricional de Carlos visava
trazer mais saúde as pessoas por meio
da ingestão de alimentos naturais, em
combinações específicas.
Mesmo sem muitos brasileiros
saberem, os Gracie foram os grandes
responsáveis pela popularização de
alimentos tradicionais do norte do país
no sudeste, como o açaí. Por influencia
direta da dieta Gracie e dos lutadores
do jiu-jitsu brasileiro, hoje o açaí e
consumido em diversos países do
mundo.
Demonstração técnica com Hélio Gracie e Sumiyuki Kotani
A CONSOLIDAÇÃO DO
JIU-JITSU BRASILEIRO
(ANOS 50)
Em 1.950 Carlos e Hélio Gracie
organizam o primeiro Campeonato
carioca de jiu-jitsu. Participaram as
academias de Augusto Cordeiro,
Azevedo Maia, Carlos Pereira e Fadda.
Oswaldo Fadda é um dos poucos
pioneiros do Jiu-Jitsu Brasileiro que
vem de uma linhagem relativamente
independente da academia Gracie. Ele
iniciou seus treinamentos em 1.937
(aos 17 anos), quando servia a Marinha
do Brasil. Teve como professor Luís
França.
Luiz França também era militar, foi
aluno de Mitsuyo Maeda, Geo Omori e
Takeo Yano. Em 1.938 Geo Omori
falece e Takeo Yano muda-se para
Minas Gerais. França passa treinar na
academia Gracie sob supervisão de
Carlos até 1.942, representando essa
escola em algumas lutas. A academia
fecha em 1.942 e França acaba
seguindo de forma independente.
Seu principal aluno foi Oswaldo Fadda,
conhecido por popularizar o jiu-jitsu
nas classes sociais mais baixas no Rio
de Janeiro. Enquanto os Gracie
ensinavam predominantemente na zona
sul, onde estava a elite carioca, Fadda
abriu uma academia do subúrbio da
cidade, ensinado pessoas de menor
poder aquisitivo. É uma figura
importante no desenvolvimento do Jiu-
Jitsu Brasileiro fora do núcleo da
família Gracie.
Hélio Vigio, Hélio Gracie e Oswaldo Fadda
A década de 50 marca a retomada
dos Gracie a frente de uma escola de
jiu-jitsu. Carlos volta para o Rio de
Janeiro e reinaugura a Academia
Gracie, agora localizada na Avenida
Rio Branco, no centro da cidade. Tinha
cinco tatames e ocupava dois andares
de um edifício no coração financeiro da
capital federal. Era um
empreendimento enorme,
provavelmente a maior academia de
lutas do mundo na época. Além de
Hélio, os principais professores eram
Carlson Gracie, Robson Gracie,
Armando Wriedt, João Alberto Barreto
e Hélio Vigio. As classes eram no
formato de aulas particulares de 30
minutos, seguindo uma metodologia
rígida desenvolvida por Hélio Gracie.
Segundo Reila Gracie, filha de Carlos,
“em pouco tempo eram dadas 100 aulas
por dia…havia um estoque de 3.000
kimonos para alunos e professores
(após cada aula os alunos deixavam os
kimonos para serem lavados)…
passavam por ali cerca de 600 alunos
por mês”.
Nesta academia treinaram pessoas
influentes como Carlos Lacerda,
jornalista e político brasileiro que viria
a ser governador da Guanabara. João
Figueiredo, militar que se tornaria
presidente da república. Oscar
Niemeyer, um dos maiores arquitetos
brasileiros. Roberto Marinho, jornalista
e fundador das organizações Globo
(maior grupo de mídia brasileiro).
Nessa época era incomum no Brasil ver
mulheres praticando esportes, ainda
mais lutas. Na escola Gracie treinaram
cantoras como Irene Macedo e as irmãs
Rosália e Milita Meireles. A atriz Eva
Todor chegou a fazer um curso defesa
pessoal lá. Muitas das personalidades
que moldaram a cultura e politica
brasileira passaram por lá.
Fichas de alunos famosos da academia
Gracie. José Amadio, jornalista (editor de
“O Cruzeiro”, maior revista brasileira da
época); Nelson Gonçalves, cantor e Manoel
Vargas, agrônomo (filho de Getúlio Vargas,
ex-presidente do Brasil)
Takeo Yano (em a esquerda) e Mitsuyo Maeda (em
adireita) com alunos da Marinha Brasileira
Cantora portuguesa Rosália Meireles com Hélio Gracie na
academia da avenida Rio Branco.
APOSENTADORIA DE
HÉLIO GRACIE E
ASCENSÃO DE
CARLSON
(ANOS 50)
Hélio, até então aposentado, resolve
voltar aos ringues em 1.951. Primeiro contra
o japonês Masahiko Kimura. Depois contra
o ex aluno Waldemar Santana. Ambos os
combates entrariam para história.
Em 1.951 os judokas Masahiko Kimura e
Yukio Kato chegam ao Brasil para divulgar
o judô. Kimura era o grande campeão
japonês, na época considerado o melhor
judoka de todos os tempos. Hélio decide sair
da aposentadoria para desafiá-lo. O campeão
queria que o brasileiro lutasse primeiro com
Kato, justificando: “Se eu vencer Hélio,
dirão que foi pela diferença de peso (Hélio
pesava 60kg e Kimura 85kg). Como estou
certo da vitória de Kato, acho melhor que
assim seja”. Masahiko Kimura
Luta Hélio Gracie e Waldemar Santana,
retratada em jornal da época.
Em setembro o Gracie luta com
Kato, no Rio de Janeiro. A luta é
realizada no estádio do Maracanã, que
havia sido inaugurado um ano e era
a maior arena esportiva do mundo.
Tinha acabado de sediar a final da copa
do mundo de futebol (1.950), em que o
Brasil perdeu para o Uruguai em frente
a 200 mil espectadores. Após 30
minutos a luta termina empatada, sendo
decidido uma revanche para o mesmo
mês. A segunda luta acontece no
estádio do Pacaembu, na capital
paulista. Hélio vence o japonês por
estrangulamento, deixando Kato
desacordado e levando o público ao
delírio. Na mesma hora Kimura aceita
o desafio do Gracie. Eles lutariam em
outubro novamente no Maracanã, em
frente a 40 mil pessoas, entre elas o
vice-presidente brasileiro Café Filho.
Kimura venceria por finalização.
Quatro anos depois Hélio faria sua
última luta, nas regras do valetudo. Por
conta de um incidente - dizem que
esqueceu as torneiras ligadas alagando
todo local - Waldemar Santana havia
sido expulso da academia Gracie, onde
trabalhava com roupeiro e treinava.
Após algum tempo voltou a treinar com
os Gracie, mas acabou sendo expulso
de novo por aceitar uma luta que Hélio
não queria que ele fizesse. Jornalistas
das época o instigaram a desafiar o
antigo mestre e a luta se realizou em
maio de 1.955. Essa é considerada a
luta de vale-tudo mais longa da
da história, e o aluno venceu o antigo
mestre por nocaute, após 3h45min de
combate.
Em 1.952, judokas japoneses
representantes da kodokan fazem uma
nova visita ao Brasil e Hélio - junto ao
irmão George - diz que seria uma honra
lutar com os visitantes. Os nipônicos
não aceitam, alegando que Hélio era
apenas 2o grau, portanto
menosgraduado que eles. Isso deixa o
Gracie indignado. Esse talvez seja um
ponto crucial na história. Será que se
houvessem aceito a luta os Gracie
teriam se juntado a kodokan como seus
representantes no Brasil, e o Jiu-Jitsu
Brasileiro teria acabado ali? O fato é
que, a partir desse momento, Hélio
passa a pensar sua arte como algo
diferente do que os japoneses
praticavam.
Nessa época começava a despontar
nos ringues Carlson Gracie, filho
primogênito de Carlos e sobrinho de
Hélio. Nascido em 1.932, Carlson
representa a primeira geração de
Gracies que nasceram e cresceram
com a missão de representar o jiu-jitsu.
Ele foi o campeão do primeiro
campeonato carioca de jiu-jitsu (1.950),
aos 17 anos. Iniciou sua carreira no
vale-tudo profissional em 1.953,
vencendo o capoeirista Luiz Pereira
“Cirandinha” Aguiar (Cirandinha
desistiu após receber uma forte
sequencia de golpes).
No mesmo ano enfrentou Wilson
“Passarito”Oliveira, capoeirista, lutador
de judo e luta-livre, numa disputa que
terminou empata (eles lutariam mais 2
vezes, com mais um empate e uma
vitória do Gracie). Carlson lutou 18
vezes nas regras do vale-tudo,
vencendo 17. Suas lutas mais famosas
foram contra o ex-aluno da Academia
Gracie, Waldemar Santana, que havia
vencido seu tio Hélio. Foram 6 lutas
entre os dois, nas regras do jiu-jitsu,
valetudo e na curiosa regra da luta-
livre americana, uma espécie de vale-
tudo em que eram permitidos golpes
de mãos abertas, chutes e luta agarrada.
Carlson venceu 2 (uma por nocaute
técnico e uma por pontos) e empatou
outras 4.
Um fato curioso é que, apesar da
rivalidade, Waldemar sempre respeitou
Hélio e manteve uma relação de
amizade com Carlson. Em 1.964,
durante a ditadura militar brasileira,
Waldemar foi acusado de ser comunista
e acabou preso. Após algum tempo
encarcerado sua esposa foi pedir
auxilio a Hélio, que conhecia muitas
pessoas influentes da época e ajudou a
libertar o exaluno.
Carlson Gracie luta contra Wilson
“Passarito”Oliveira no estádio do
Maracanã (1.953) Carlson Gracie luta contra Waldemar Santana.
A PRIMEIRA FEDERAÇÃO
DE JIU-JITSU BRASILEIRO
(ANOS 60)
Entre 1.959 até 1.961, o programa
“Heróis do Ringue” transmitiu lutas de
vale-tudo televisionadas ao vivo. O
show era organizado por Carlos Gracie.
A televisão havia sido introduzida no
Brasil em 1.950 e começava a se tornar
um dos principais veículos de mídia,
aumentando ainda mais a popularidade
do jiu-jitsu. Em 1.961 João Alberto
Barreto, um dos principais lutadores da
Academia Gracie, acabou fraturando o
braço de seu adversário. Isso acabou
chocando os telespectadores e a mídia,
e o programa acabou sendo extinto.
Nessa mesma década o jiu-jitsu
brasileiro começa a organizar-se como
esporte.
Até então as competições de jiu-
jítsu brasileiro eram regulamentadas
pela confederação brasileira de
pugilismo. Em 1.967, Helio Gracie,
Álvaro Barreto, João Alberto Barreto,
Hélio Binda e Oswaldo Fadda,
professores das principais escolas de
jiu-jitsu, se juntam para criar a
Federação de Jiu-Jitsu do Estado da
Guanabara (a Guanabara era o estado
da antiga capital federal brasileira, que
depois se fundiria ao estado do Rio de
Janeiro). A entidade tinha Hélio como
presidente e Carlos Gracie como
presidente do conselho consultivo.
A federação organizou seu primeiro
campeonato oficial em 1.973, tendo
como campeão absoluto o jovem Rolls
Gracie. Também foi responsável por
oficializar um sistema de faixas e graus
e as regras de competição. Um curso de
regras foi ministrado por Hélio Gracie
na academia Kioto, do mestre Alvaro
Mansur. Esse foi o primeiro grande
movimento para transformar o jiu-jitsu
brasileiro em um esporte, não somente
uma arte marcial praticada para defesa
pessoal ou desafios profissionais.
ABERTURA DO JIU-
JITSU DE CARLSON
(ANOS 70)
Carlson fez sua última luta em
1.970, mais uma vez contra Waldemar,
nas regras do vale-tudo, com vitória do
Gracie. Após se aposentar ele decide
abrir sua própria academia, onde
formou inúmeros ícones do jiu-jitsu,
muitos dos quais também viraram
lendas no MMA moderno.
Inicia-se nessa época uma rivalidade
com o tio, Helio. Carlson focou sua
academia no treinamento de atletas de
competição, enquanto Helio acreditava
que o jiu-jitsu devia ser uma ferramenta
de aperfeiçoamento da vida de pessoas
comuns e focado na defesa pessoal.
O fato é que Carlson acabou
“abrindo” o jiu-jitsu de alto
rendimento, até então encabeçado pela
família Gracie e alguns alunos mais
próximos, para um número muito
grande de pessoas. Ele formou uma
legião de alunos que influenciaram e
influenciam até os dias de hoje a cena
do jiu-jitsu esportivo e do MMA
mundiais. Para se ter uma ideia, 3 das
maiores academias de MMA do planeta
foram fundadas por seus alunos diretos
- Brazilian Top Tem, American Top
Team e Nova União.
Ao mesmo tempo surgia um irmão
de Carlson como o próximo grande
expoente da família, chamado Rolls
Gracie, filho de Carlos mas criado pelo
tio Hélio. Rolls é considerado um
inovador no jiujitsu. Além do que
aprendeu com a família, ele buscou
conhecimento em outras artes,
competindo em esportes como a luta-
olímpica e o sambo russo.
Em 1.976 os Gracie fizeram uma
demonstração em um programa da TV
Tupi. Dias depois um mestre de caratê
foi ao programa para outra
demonstração. Ao final, o apresentador
perguntou sobre o que aconteceria em
uma possível luta contra o jiu-jitsu. O
carateca disse “vamos arrebentar o jiu-
jitsu”. O desafio foi aceito e ocorreu no
mesmo ano. O jiu-jitsu ganhou todas as
lutas, com Rolls vencendo, na luta
principal, o mestre de caratê que havia
feito o desafio.
Rolls fez o mesmo que o seu pai
e tios tinham feito nos anos 30,
adaptando e agregando ao jiu-jitsu
outras artes e testando novas
hipóteses em treinos e desafios. Era
também similar ao que os japoneses
que vieram para o Brasil do século
XX tinham feito, sendo
influenciados por outros esportes de
combate que tiveram contato e por
desafios que participaram.
Rolls tinha um jiu-jitsu mais
ofensivo do que defensivo. Também
introduziu a preparação física dentro
do treinamento, algo que não era
muito comum até então. Por esses
motivos é considerado o elo entre o
jiu-jitsu brasileiro antigo e o
moderno. Num momento em que o
jiu-jitsu estava “em baixa” devido a
pouca cobertura da mídia, além da
explosão dos filmes de caratê e
kung-fu, Rolls foi fundamental na
disseminação dessa arte. Tinha um
carisma enorme e influenciou
muitos jovens da sua geração.
Rolls Gracie vencendo desafio de vale-tudo contra o
karate em 1.976
ROLLS E RICKSON GRACIE
(ANOS 80)
Em 1.982 Rolls falece de forma
trágica, em um acidente de asa delta.
Porém sua influencia até hoje é
enorme. Rolls graduou alguns faixas
pretas, entre eles Romero “Jacaré’
Cavalcanti e Carlos Gracie Jr., que
fundaram duas das maiores escolas de
jiujitsu da atualidade, a Alliance e a
Gracie Barra. Os dois formaram vários
faixas pretas campões.
para dar alguns exemplos,
Romero formou Fábio Gurgel, co-
fundandor da Alliance (que foi meu
professor), Leonardo Vieira (fundador
da equipe CheckMat), Alexandre Paiva
(formou de Fernando “Tererê”,
professor de André Galvão, fundador
da equipe Atos).
Nessa época começa a despontar
como o melhor lutador de jiu jitsu o
jovem Rickson Gracie (filho de Hélio),
que também tinha uma relação bem
próxima a Rolls. Rickson participa do
seu primeiro vale-tudo aos 20 anos,
contra o famoso Rei Zulu, considerado
o combate mais difícil de sua carreira:
“Quando acabou o round, eu cheio de
sangue do Zulu, cheguei no córner e
disse para o meu pai que não poderia
seguir.
Que estava morto de cansado. Ele nem
ouviu o que eu falei. Me massageou e
disse que o cara estava mais cansado do
que eu. Eu reforcei, disse que estava
mal, que não conseguiria nem levantar.
Nisso meu irmão Rolls pegou um balde
de gelo com água e jogou na minha
cabeça. Puxei o ar bem fundo com o
susto e o gongo bateu, com eles me
empurrando de volta para o ringue. Me
peguei com o negão de novo, tive a
felicidade de agarrar ele pelas costas e
finalizar no mata-leão”. Após a morte
de Rolls, Rickson assume o
posto como o lutador numero um do
jiu-jitsu brasileiro.
Outro fato marcante dessa década é
o surgimento de uma grande rivalidade
entre a luta livre esportiva (uma espécie
catch wrestiling que se desenvolveu no
Brasil) contra o jiu-jitsu brasileiro. As
brigas entre os praticantes das duas
modalidades eram constantes, assim
como desafios de vale tudo, tanto a
portas fechadas como em ginásios.
Um movimento de levar o jiu-jitsu
brasileiro para outros países, iniciado
na década de 70 (com Carley Gracie e
Rorion Gracie), começou a se
intensificar. O filho primogênito de
Hélio Gracie, Rorion, começa a dar
aulas na garagem de sua casa na
Califórnia. Usando a mesma
estratégia que seu pai tinha usado
desde os anos 20 no Brasil, ele passa a
desafiar lutadores de outras artes
marciais. Essa lutas eram gravadas e
depois dariam origem ao famoso
documentário “Gracie Challenge”,
que ajudaria a divulgar a arte marcial
brasileira nos Estados Unidos.
Em 1.993 Rorion Gracie decidi
lançar um evento nos moldes do
“Heróis do Ringue” que existiu no
Brasil no final dos anos 50. Ele
consegue dinheiro com alguns de seus
alunos e cria o Ultimate Fighting
Championship (UFC) que viria a mudar
para sempre o mundo das artes
marciais. Seu irmão mais novo, Royce
Gracie, vence as primeiras edições do
evento com uma técnica desconhecida
pela maior parte do planeta, fazendo o
jiu-jitsu brasileiro se tornar uma febre
mundial.
Em 1.994 Carlos Gracie Jr. (filho do
patriarca Carlos) cria a CBJJ
(Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu),
e promove o 1o campeonato brasileiro
de jiu-jitsu. Em 1.996 é realizado o 1o
campeonato mundial de jiu-jitsu. Em
2.002 Carlinhos cria a IBJJF
(Internacional Brazilian Jiu-Jitsu
Federation), aumentando ainda mais a
internacionalização das competições
esportivas de jiujitsu brasileiro.
Rickson vencendo rei Zulu
A FAMÍLIA QUE DESENVOLVEU
O JJB CRIA O UFC (ANOS 90)
Royce Gracie após vencer o primeiro UFC. No octógono com a
esposa, o pai Hélio (de terno) e os irmãos Rickson (atrás de
Hélio)e Rorion (de smoking) - criador do UFC.
Kyra Gracie começa a treinar nesta década. Em 2.006 torna-se a
primeira mulher da família que criou o Jiu-Jitsu Brasileiro a
receber a faixa preta. Ela viria a ser campeã mundial o do ADCC
diversas vezes.
Outro fato importantíssimo é a
criação do Abu Dhabi Combat Club
Submission Wrestling World
Championship (ADCC), competição
criada em 1.998 por Sheikh
Tahnoon Bin Zayed Al Nahyan, dos
Emirados Árabes Unidos. O
campeonato é considerado as
Olimpíadas da lutas agarradas.
Sheikh Tahnoon começou a treinar
jiu-jitsu brasileiro em 1.995, com
Nelson Monteiro, quando vivia nos
Estados Unidos e ficou fascinado
pela vitória de Royce Gracie nos
primeiros UFCs. Após alguns anos
ganhou a faixa preta de Renzo
Gracie. Foi o responsável pela
criação do maior evento de lutas
agarradas do mundo e também por
implantar o jiu-jitsu brasileiro em
todas escolas dos Emirados Árabes
Unidos, algo inédito. Sheikh Tahnoon Bin Zayed Al Nahyan
premiando Renzo Gracie no ADCC.
AG RA DE CI M E N T O S :
Espero que você tenha gostado dessa Breve História do Jiu-Jitsu
Brasileiro. Essa arte marcial é uma das mais importantes manifestações
culturais que o povo brasileiro criou e exportou para o mundo. No
futuro pretendo escrever um livro completo, aprofundando mais a
história e os personagens. Agradeço imensamente as pessoas que me
ajudaram nas pesquisas desse texto. Elton Silva, pesquisador e escritor
do livro “Muito Antes do MMA”. Pedro Valente, aluno de Hélio Gracie
e também pesquisador apaixonado pela história do jiu-jitsu. Marcelo
Alonso,jornalista pioneiro do jiu-jitsu e MMA. Reila Gracie por escrever
o belíssimo livro sobre seu pai, Carlos Gracie.